Slow Food

 

Cazuza já dizia na canção: “o tempo não pára…” uma espécie de apologia à urgência de viver, fazer tudo que for possível numa luta constante contra o tempo. Estamos vivendo na era da velocidade, onde o tempo parece escorrer pelas nossas mãos e, indignados, corremos mais querendo ultrapassá-lo. Hoje existem produtos químicos que aceleram a germinação, a maturação e consequentemente aceleram a finalização.

A velocidade se tornou um novo paradigma, um padrão de comportamento para quem quer obter sucesso, estar integrado, fazer parte do sistema, concorrer no mercado e ser aceito e aplaudido. No entanto, podemos ser simplesmente sugados pelo sistema e acabarmos sendo consumidos velozmente, sem nos darmos conta de que podemos fazer mais, porém administrando o tempo com lucidez e planejamento.

É preciso tempo para tudo: para nascer, para germinar, para dar frutos, para morrer. Ser veloz não é a mesma coisa que ter pressa. Fazer as coisas rapidamente não é o mesmo que terminar no menor tempo. Sair na frente não garante chegar em primeiro lugar. Há uma certa dose de relatividade. Quando fazemos as coisas com calma, colocamos mais atenção ao momento presente e erramos menos. Quando abandonamos o “Fast Food” estamos optando pelo “Slow Food”, e não se trata de comida, se trata de estilo de vida.

A maioria das pessoas no mundo estão sempre apressadas vivendo no estilo “Fast Food”, um jeito urbano da modernidade, em que um sanduiche é comido com muita urgência encostado de pé em um balcão na hora do almoço, esquecendo-se dos prazeres do “Slow Food”: sentar-se à mesa, comer e beber devagar, dando-se o tempo para saborear a comida, transformando a refeição em um momento de encontro e comunhão com a paz e com o prazer, sem pressa e com muita qualidade e satisfação, essa é a idéia. Trata-se do contraponto ao espírito do Fast food e o que ele representa como estilo de vida moderno.

A idéia de respeitar o tempo de comer, valorizando a arte da culinária, o convívio familiar e melhorar a saúde, amplia sua ação para muito além da borda da mesa de jantar. Tem tudo para virar filosofia de vida, pois comer não é mais do que uma das múltiplas atividades a que o homem se submete em sua rotina diária, entre tantas outras. O Slow Food pode servir de base para um movimento maior, inicialmente chamado Slow Europe. Sua idéia é questionar a pressa do mundo, a angústia das pessoas, a loucura generalizada na sociedade imposta pela globalização, pela competitividade crescente e pela velocidade da informação proporcionada pela Internet.

O engenheiro americano Frederick Taylor, no início do século 20, criou as bases da administração moderna, procurando otimizar o trabalho dos operários em uma fábrica. Para isso, estabeleceu uma relação matemática entre a produção que eles conseguiam e o volume de recursos utilizados na produção. E Taylor considerou o tempo como o mais importante entre todos os recursos. A partir de então se estabeleceu a cultura do século que se iniciava: fazer mais, em menos tempo. Porém fazer as coisas em menos tempo não significa fazer mais rápido, significa fazer com mais qualidade. A má interpretação de sua idéia acabou por criar um caos comportamental que se refletiu em pessoas apressadas, neuróticas e infelizes. “Pense antes de fazer, planeje seu trabalho, organize-se e só então faça”, dizia ele.

Correr como baratas tontas diante da necessidade de fazer mais com menos, é bem diferente do que planejar, preparar, aprimorar a técnica e só então fazer, rápido mas sem pressa, saboreando cada momento como único, que de fato é. Não se pode lutar contra o tempo. Ele é poderoso e sempre ganha a batalha. A idéia não é de luta mas de aliança, porque se você gasta um pouco mais de tempo para fazer bem feito, você economiza o tempo que gastaria refazendo ou corrigindo defeitos e erros. A velocidade é precisa, a pressa é imprudente. Quando o poeta Fernando Pessoa disse “navegar é preciso, viver não é preciso”, ele se referia à precisão, ao detalhe, ao cálculo, ao planejamento, necessários à navegação e não ao verbo precisar, sinônimo de necessitar.

Ter uma atitude sem pressa significa colocar mais atenção no que se faz, dedicando tempo para os valores que a rapidez do mundo moderno relega a um plano secundário: a família, os amigos, o lazer, a cultura, o tempo livre para simplesmente viver. É uma volta à valorização da casa, do bairro, da cidade, dos ambientes conhecidos, presentes, palpáveis, em oposição ao mundo globalizado, distante, anônimo, abstrato, frio. O acesso aos valores essenciais à felicidade do ser humano, como a convivência, a fé, a esperança, a serenidade, os prazeres do cotidiano, torna-se mais fácil através de uma atitude sem pressa. O resultado é um profissional menos estressado e neurótico, mais leve, mais feliz e, por isso mesmo, mais produtivo.

A sabedoria popular cunhou outros ditados para falar da importância de se reduzir a velocidade: “devagar se vai ao longe”; “o apressado come cru” são alguns deles. Quer um bom resultado, com segurança e rápido? Então faça devagar, não se afobe, pense antes de agir, faça uma coisa de cada vez. Lembre-se: velocidade é diferente de pressa. Ser veloz é adequar-se às condições. O veloz chega antes, o apressado se cansa pelo caminho. O carro não pode ir mais rápido do que as condições que a estrada permite. A boca não pode falar com a velocidade do pensamento.

Chronos é o deus do tempo medido, do cronômetro, do relógio, do calendário, das ações repetitivas. Mas é Kairós quem governa o tempo vivido, aproveitado, saboreado, sentido, bem utilizado. O imperador romano Octavius Augustus, que viveu no início da era cristã, ao observar as trapalhadas de seus oficiais que, por medo ou vontade de agradar, saíam correndo para atender suas ordens, incorporou o hábito de recomendar sempre: “Festina lente”. Sábio conselho, que significa: apressa-te devagar. Em outras palavras, faça rápido mas com cuidado.

 

 

 

 

 

 

 

 

Fonte: http://gestaodenegocioseeventos.blogspot.com.br

 
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